Enxergando a bondade em tudo | por Michael Berg

Cada mês, como sabemos, tem sua própria combinação única do Tetragrama que representa a Luz, energia e dons disponíveis para nós naquele mês. E o Tetragrama do mês em que estamos entrando, o mês de Touro, ou Iyar, é Yud Hei Hei Vav. O Ari nos ensina que isso está ligado à obtenção da compreensão e da sabedoria; portanto, neste mês, os kabalistas ensinam que o dom de chegar à verdadeira compreensão está disponível. Mas qual é o verdadeiro entendimento? Não se trata de ter mais informações, estudar mais fatos ou saber mais coisas. Em vez de ter sabedoria real, conhecimento e compreensão significam ter a capacidade de ver tudo. Nós experimentamos muitas coisas em nossa vida – algumas boas, outras nem tanto. No entanto, se tivéssemos a visão perfeita, se tivéssemos a capacidade de ver o propósito de tudo e a Luz do Criador em tudo, então não veríamos nada além de bondade. A razão pela qual nós experimentamos a negatividade ou a escuridão é apenas porque estamos limitados em nossa visão.

Se pudéssemos ter uma visão real, para termos uma compreensão real de por que as coisas estão acontecendo – não logicamente, mas para sermos capazes de vê-las mais a fundo e ver nelas a Luz –, nós experienciaríamos tudo na vida de forma completamente diferente. É um presente deste mês de Touro: chegar a uma visão verdadeira, uma compreensão de por que as coisas estão acontecendo, de modo que, por fim, enxerguemos a Luz em cada experiência que tivermos.

Então, como alcançamos essa verdadeira visão?

Há uma história no Zohar na porção de Emor que nos dá uma compreensão mais profunda dessa lição e que se conecta diretamente à Luz do começo do mês de Touro. Nós não encontramos muitas vezes Rav Shimon bar Yochai repreendendo seus alunos, mas aqui, sim. Dizem que Rav Shimon estava andando com cinco de seus alunos; como nós sabemos, eles sempre caminhavam e viajavam, estudando juntos, ganhando conhecimento e visão. Então, enquanto eles estavam caminhando, eles chegaram a um campo com água por todo o lado. Um dos cinco alunos, Rav Yossi, cai num cocho de água, onde molha e suja suas roupas. Ele fica com raiva e diz: "Eu gostaria que isso não tivesse acontecido!", e, então, Rav Shimon repreende-o: "Você não tem permissão, nunca, para menosprezar nada, porque isso é para o bem do mundo e está fazendo algo positivo neste mundo. Você não pode falar negativamente disso, você não pode ter uma visão negativa disso; você tem que ver isso como positivo. Você não pode ficar com raiva disso, porque isso tem um propósito."

Nesse caso, é óbvio que o propósito positivo da água é permitir que as plantações cresçam e alimentem as pessoas, mas, às vezes, não podemos ver como uma boa vontade resultará possivelmente de uma situação na qual nós estamos. No entanto, isso não importa. Rav Shimon está dizendo a ele e a nós que é muito perigoso ficar com raiva da negatividade e depreciar as coisas que nos feriram. Por quê? Rav Shimon cita um verso do processo de criação, que diz que o Criador criou tudo – incluindo cobras, escorpiões e mosquitos – e tudo é bom. Portanto, Rav Shimon diz que não podemos falar com desprezo ou ver negativamente qualquer coisa que nos cause uma má experiência, porque todas elas têm um propósito positivo neste mundo.

Então, essa história é seguida imediatamente por outra história. Rav Shimon e os mesmos cinco estudantes estão andando, quando uma cobra de repente aparece na frente deles, para a qual Rav Shimon diz: "Eu tenho certeza que esta cobra vai criar um milagre para nós". A cobra, então, encontra uma cobra mais perigosa que vem em direção a eles, e luta contra ela. A primeira cobra mata a cobra mais perigosa e depois morre. Eles veem as duas cobras estendidas lá, e Rav Shimon diz: "Eu sou grato ao Criador por criar esta cobra e enviar este milagre para nós, porque se a primeira cobra não tivesse vindo lutar, a segunda cobra teria mordido pelo menos um de nós, e teria nos prejudicado ou nos matado. Nós despertamos proteção, e nenhuma negatividade pode chegar até nós. Vejam, como eu lhes disse – tudo neste mundo tem um propósito”.

Não é uma coincidência que essas duas histórias surjam uma após a outra. Rav Shimon bar Yochai sabia que todos nós precisamos de proteção. Mas nós temos que entender que a proteção não vem apenas das coisas de que gostamos, mas, às vezes, a maior proteção vem das coisas que nós não gostamos, e se nós não apreciamos essas coisas, elas não podem nos proteger. Quando nós menosprezamos as coisas que nos ferem, é como se estivéssemos dizendo ao Criador que há certas coisas que não queremos perto de nós nas nossas vidas, e então essas coisas, e aquela Luz, não podem nos proteger. A cobra protegeu Rav Shimon e seus alunos porque eles sabiam que as cobras eram boas e que tudo o que experimentamos tem bondade dentro, e que quando vemos isso dessa maneira, estamos protegidos por elas.

Então, voltando à questão anterior, como ganhamos visão? Nós fazemos isso começando a ver as coisas que antes pensávamos serem negativas dizendo: "Há alguma bondade aqui. Eu posso não ver, mas há bondade nisso”. E se tomarmos consciência, desta forma, podemos começar a receber a proteção que vem de todas as criações deste mundo. Quanto mais nos esforçamos para ver a bondade em todas as situações e em tudo, mais poderemos recorrer a nós mesmos para ter a proteção que todos nós precisamos. É um lindo presente disponível para nós assim que  entramos e durante todo o mês de Touro.